Relatos de Viagem

Relato Peruaçu 2019

15 de janeiro de 2020

Bastidores da expedição

 

Por Tom Alves

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”.

João Guimarães Rosa, em GS:V

 

Na minha opinião, um dos locais mais impressionantes deste país, a região do Vale do Peruaçu ainda permanece desconhecida pela esmagadora maioria dos brasileiros.

Talvez pela razoável distância para os grandes centros, num território ainda esquecido por seus governantes. Localizado nos confins do norte de Minas Gerais, terra conhecida pela colossal palavra SERTÃO, na qual Guimarães Rosa, em sua obra-prima, muito bem descreveu esta vasta porção do Brasil continental.

Fato é que, mesmo hoje, mais de sessenta anos após Rosa ter publicado o livro Grande Sertão: Veredas, regiões como a do Peruaçu pouco mudaram. Ali, às margens do Velho Chico, por casas de moradores e também pelas cavernas do Parque Nacional, pudemos viver uma imersão cultural e fotográfica pela pureza do universo mágico imortalizado pelo grande Guimarães.

 

Embora esta não tenha tido pretensões de ser uma viagem temática da literatura Roseana, não há como fugir das constantes semelhanças e associações ao dito, pois a cada caminhada pelas trilhas pela mata seca, a cada dedo de prosa com a simplicidade sertaneja ou simplesmente, ao observarmos, da sacada de nossa pousada, o majestoso Rio São Francisco, tudo ali cheirava Rosa, num delicioso aroma, que permeou intrinsecamente nossa Travessia.

“O senhor sabe o mais que é, de se navegar sertão num rumo sem termo, amanhecendo cada manhã num pouso diferente, sem juízo de raiz? Não se tem onde se acostumar os olhos, toda firmeza se dissolve. Isto é assim. Desde o raiar da aurora, o sertão tonteia.”

 

A Viagem em si

Começamos o roteiro nos reunindo no Aeroporto de Montes Claros. Gente de vindo de toda parte, das grandes cidades, ansiosos por conhecer um pouco do Ouro de Minas.   

Mais três horas de viagem terrestre, eis que chegávamos a Itacarambi, o nosso pouso pela semana inteira a seguir.

Na manhã seguinte, antes mesmo das primeiras luzes iluminarem a cidade, já estávamos à beira do São Francisco, onde fotografamos o despertar do Rio e seus personagens. Mais tarde, já no Parque Nacional, visitamos cavernas e testemunhamos o trabalho dos primeiros artistas destas terras, através das pinturas rupestres de locais como a Lapa dos Desenhos, Caboclo e Gruta do Carlúcio.

 

 

Visitamos também, ao longo da viagem, local que chamo de a Madagascar brasileira. Semelhante à Alameda dos Baobás, fomos à uma floresta de Barrigudas, árvores centenárias, parentes dos baobás africanos. Difícil descrever a magnitude destes gigantes. No local, estendemos até o cair da noite, onde registramos a beleza do céu do sertão, sob um tapete de estrelas que até tonteia.

 

“Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso…”

 

Na viagem, houve também muita fotografia de pessoas. Desde roda de Folia de Reis, até comunidade numa ilha no Rio São Francisco. Casa de farinha, lares simples, comida caseira, roça de mandioca, banho de rio, de tudo um pouco.  

 

 

Estivemos mais vezes no Parque do Peruaçu, visitamos o Parque Estadual da Mata Seca, fazenda ao pé da serra, amanhecer em Mirantes, fotografamos pescadores … uma semana para não sair da memória. Como diria Rosa:

“Sertão sempre. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.”

E para terminar, notícia boa para quem ficou encantado com este relato visual. Neste ano de 2020, a Travessia, com muita alegria, voltará ao Peruaçu. Todos os detalhes, AQUI: