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Relatos de Viagem

Relato El Chaltén – 2022

19 de maio de 2022

O Maciço do Cerro Fitz Roy ao amanhecr

Por: Tom Alves

Lá se vão 5 anos desde nossa última viagem à Patagônia. Em 2017, inauguramos nossas expedições para a região e em dois roteiros distintos, exploramos El Chaltén, Argentina e Torres del Paine, no país vizinho, Chile. Nos links acima você pode conferir em detalhes, os relatos dessas viagens. 

A pandemia adiou por dois anos este roteiro, originalmente agendado para o fim de março de 2020, bem quando o mundo virou de ponta à cabeça. Mas nosso grupo nunca perdeu a esperança e nos mantivemos unidos para que, finalmente, a expedição pudesse acontecer.

Portanto, a ansiedade era grande. E não era pra menos. A Patagônia, em minha opinião, é um dos locais mais belos e desafiantes deste planeta. Clima cambiante, terra dos ventos implacáveis, região remota. Mas isso só faz nosso troféu ser maior e recompensador.

Novamente, decidimos realizar a viagem no outono, a estação predileta para a fotografia de paisagens. As cores da vegetação são um espetáculo à parte, as texturas e qualidade da luz incríveis e os ventos começam a soprar com menos intensidade. 

Nosso ponto de partida foi a bela El Calafate. Às margens do Lago Argentino, o maior do país, a cidade possui uma ótima infraestrutura turística, como aeroporto, bons hotéis, lojas e excelentes restaurantes. Lá, reunimos o grupo, para que no dia seguinte, pudéssemos arrancar em direção à Vila de El Chaltén

Ali se iniciava a parte central da expedição: cinco dias de exploração pelo Parque Nacional Los Glaciares, incluindo um trekking com acampamento de três dias, sempre aos pés das míticas montanhas Fitz Roy e Cerro Torre.

A logística foi crucial para o sucesso da expedição. Acampamos em locais estratégicos, tanto pelas possibilidades fotográficas como também pela infraestrutura excepcional de nosso operador local.  Porteadores se encarregavam de transportar grande parte da carga, ficando apenas os itens pessoais para cada um levar consigo. E o fato de já estarmos na montanha todos os dias, fez com que nossas caminhadas fossem bem mais curtas e leves, pois dormíamos literalmente nas locações fotográficas. Outro ponto bastante positivo foi a proximidade que mantivemos uns dos outros durante nossos dias na cordilheira. As partilhas, conversas e confraternizações foram riquíssimas, pois somente um ambiente como aquele poderia propiciar isto. Vou sentir saudades das boas risadas e dos tragos de vinho, durante nossos jantares.

E por falar em logística, alguns dias antes da viagem, em contato direto com nossos guias locais, percebi que teríamos um problema com relação ao clima. Uma frente fria muito forte se aproximava de Chaltén e nos pegaria em cheio no primeiro dia de caminhada, além de comprometer seriamente nossa cereja do bolo, o amanhecer do segundo dia, aos pés do Monte Fitz Roy, na Laguna de Los Tres. Na Patagônia, a previsão do tempo é muito precisa e uma ferramenta essencial para montanhistas e fotógrafos. Por isso, sempre trabalhamos com a possibilidade de um plano B, para que nossos roteiros possam se adaptar de modo a termos o melhor aproveitamento fotográfico possível. 

Faltando dois dias para a partida, conseguimos alterar toda a logística e reprogramamos nosso trekking, movendo em um dia para frente. Deste modo, tudo deveria melhorar.

E assim fizemos. A ideia original era chegar em Chalten e já iniciar o trekking. Como previsto, o dia estava chuvoso, frio, e uma fina neblina cobria a paisagem. Foi um alívio poder ficar na cidade este dia. O que fizemos foi uma visita, sob uma leve e intermitente garoa, à cascata Chorrillo del Salto, pois era um tipo de fotografia que nos permitia boas fotos mesmo sob aquelas condições. 

Na manhã seguinte, definitivamente saímos para nossos três dias na montanha. Havia uma previsão de chuva pela manhã e tempo se abrindo na parte da tarde. Começamos a caminhar com o tempo ainda fechado. À medida que avançávamos, a garoa ia se transformando em pedrinhas de gelo e no fim da manhã, veio o inesperado: neve em pleno mês de março, algo bastante incomum para a época! Em poucos minutos, a paisagem estava completamente branca. Uma quantidade considerável de neve se precipitou num intervalo de aproximadamente uma hora. Foi um grande presente, uma surpresa que a natureza preparou para nos receber. Sem dúvidas, um momento inesquecível, de rara beleza. 

Panorama minutos após a neve !

E a previsão do tempo estava mesmo correta. No período da tarde o tempo foi abrindo e pudemos ver o cordão montanhoso do Fitz Roy durante nosso caminho até a primeira de duas pernoites no acampamento. Durante a noite, ainda fotografamos o céu totalmente aberto e estrelado. 

Após o jantar, nos reunimos com nosso guia de montanha, que nos informou sobre o acúmulo de neve ao longo da subida para a Laguna de Los Tres, deixando a trilha bastante resvalosa, sobretudo por causa dos trechos cobertos por uma fina camada de gelo, super escorregadia. Sabíamos que seria muito desafiante e talvez até impeditivo, mas decidimos tentar, pois aquela locação fotográfica era a mais esperada na expedição. Assim, combinamos que se nosso guia avaliasse que o risco estava elevado, abortaríamos o plano e regressaríamos para o acampamento. Agora era cruzar os dedos e rezar para que nosso percurso estivesse transitável com segurança. 

Nosso segundo dia de trekking começou bem cedo, ainda muito antes do nascer do sol. Precisávamos percorrer apenas 2.5km, porém, em sua maior parte, em uma subida bastante íngreme. Da metade para cima, alcançamos o temeroso gelo, portanto fomos progredindo muito lentamente, pois era realmente escorregadio, como caminhar sobre sabão. Levamos quase 3h para chegarmos até o mirante onde esperamos, prontamente, o nascer do sol. Quando paramos de caminhar, rapidamente nossos corpos esfriaram e foi necessário utilizar todas as camadas térmicas que trazíamos na mochila. Provavelmente estávamos a uma temperatura pouco abaixo de zero.  

Quando as primeiras luzes tocaram o topo do Monte Fitz Roy, a emoção foi forte: presenciamos um amanhecer fabuloso, dava pra ver nos semblantes de todos do grupo a felicidade e sentimento de realização. Naquela hora não havia frio ou qualquer outro problema. Estávamos 100% focados em registrar aqueles momentos únicos. 

Após alguns snacks e um revigorante chá bem quente, começamos a descida para o acampamento. Esta foi a parte mais difícil, pois o gelo ainda estava muito escorregadio. Por segurança, boa parte do caminho fizemos literalmente sentados, para evitar quedas. Isso nos tomou um tempo bem maior, mas chegamos todos bem ao destino e isso é o que mais importa. 

O dia ainda continuou com nosso deslocamento para o segundo camping, a poucos minutos do Cerro Torre. Ao final da tarde, já cansados, chegamos ao acampamento. Fomos recebidos por uma deliciosa mesa de frios, vinho e outros petiscos deliciosos. O jantar, em seguida, foi fantástico! Aliás, um dos pontos altos desta viagem foi a gastronomia. Sempre ótimos restaurantes e ainda arrisco a dizer que no camping tivemos as melhores refeições da expedição. Nossa cozinheira outdoor simplesmente arrasou! 

A noite esfriava rápido, mas ainda houve quem se animasse a ficar fora das barracas por uns minutos para mais astrofotografia ! Acampamos   

No terceiro e último dia de trekking, novamente acordamos bem cedo e após 30 minutos de caminhada, estávamos de frente para o Lago Toro, onde refletido em suas águas, pairava o Cerro Toro, outra mítica montanha da Patagônia. Novamente, um amanhecer épico. E desta vez, com algumas nuvens no céu, que na hora dourada, ficaram tingidas de rosa, deixando o cenário ainda mais belo. Tivemos alguns momentos de absoluta calmaria na brisa, algo muito raro por lá, onde as tão esperadas fotos de reflexos das montanhas foram possíveis.

O restante do dia foi dedicado ao nosso retorno para El Chaltén e um merecido descanso. 

Ainda permanecemos mais dois dias inteiros na vila, onde fotografamos alguns mirantes nas proximidades. A sorte com o clima continuou a nos acompanhar, onde presenciamos mais dois espetaculares amanheceres. Acho que foi a primeira vez que estive na Patagônia com uma janela de tempo perfeito tão ampla. Cinco dias seguidos tão favoráveis são coisa muito rara por lá. Sem dúvidas, uma viagem que ficará eternamente em nossas memórias. 

Ano que vem tem mais ! =)    

Bastidores da expedição

Veja também:

Expedição El Chaltén – Informações úteis

Relato Patagônia – El Chaltén 2017

Patagônia – El Chaltén 2023

Fotografia além da Golden Hour

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